A concentração histórica de espécimes-tipo em museus do Norte Global limita o acesso de cientistas de países tropicais ao conhecimento sobre a biodiversidade.
O professor Gabriel Nakamura, do Departamento de Genética, Ecologia e Evolução do Instituto de Ciências Biológicas da UFMG (ICB), é o autor principal de um estudo publicado na revista Proceedings of the Royal Society B: Biological Sciences, uma das mais importantes do mundo na área de biologia. O artigo, intitulado “The hidden biodiversity knowledge split in biological collections” (A divisão oculta do conhecimento sobre biodiversidade nas coleções biológicas), investiga como as informações sobre a diversidade de espécies estão distribuídas de forma desigual entre diferentes regiões do planeta.
O estudo mostra que boa parte do conhecimento sobre a biodiversidade global está concentrada em instituições do chamado Norte Global (países da Europa e da América do Norte), mesmo quando as espécies estudadas são originárias de regiões tropicais, como América do Sul, África e Sudeste Asiático. Esse padrão é especialmente evidente nos chamados espécimes-tipo, que são os exemplares de referência usados para descrever e nomear oficialmente uma espécie. Embora muitos desses espécimes tenham sido coletados em países do Sul Global, eles estão depositados majoritariamente em museus e coleções estrangeiras.
De acordo com os autores, essa desigualdade gera o que chamam de “knowledge split”, ou “divisão do conhecimento”: parte importante das informações sobre a biodiversidade fica inacessível aos pesquisadores dos países de origem das espécies. Isso cria obstáculos para o avanço científico, dificulta o estudo da fauna e da flora locais e reforça desigualdades históricas na produção de conhecimento científico. O trabalho também aponta que essa concentração é resultado de fatores históricos, como o passado colonial, e estruturais, como a diferença na infraestrutura e no financiamento das instituições científicas ao redor do mundo.
A publicação do estudo em uma revista de prestígio como a Proceedings of the Royal Society B evidencia o reconhecimento internacional do trabalho conduzido no ICB UFMG. A pesquisa liderada por Gabriel Nakamura reforça a presença da universidade nos debates científicos e destaca a contribuição de seus pesquisadores para a produção de conhecimento de alcance mundial.
Redação: Timóteo Dias